"Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra de dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me (…)"

Eu não faço ideia de como eu poderia fazer as coisas mais claras para você. Não pude fazê-lo naquele momento, não posso agora. Poderei algum dia? Eu só queria que acreditasse em uma coisa que é uma de minhas únicas verdades - eu amo você. Sempre vou amar, penso assim. Não tenho como evitar isso, de modo a fazer com que as coisas só sejam mais difíceis, para ambas as partes. E eu realmente sinto muito, mesmo, pelo que eu acabei por fazer-lhe passar. Já lhe disse mais de uma vez, sou a pessoa mais egoísta que há nesse mundo. Sou possessiva, ciumenta, cruel, egocêntrica. E não meço as consequências de modo tão racional quanto deveria. E me queima por dentro relembrar cada um dos nossos momentos, como eles fazem falta para mim. Sim, e muita. Cada um, que passamos, por cada pequena coisa ao longo do tempo. E você não faz ideia da vontade que tenho - em alguns momentos insanos, confusos e carentes - de simplesmente apagar o que fiz. Se não apagar, poder pedir uma nova chance a você. Caso não aceitasse um pedido, imploraria, relembraria tudo o que se passou, e o quanto eu preciso isso de volta. O quanto virou uma necessidade, até uma dependência. Sei agora, que essa parte principalmente, foi o que mais me assustou. Alguém como eu, cheia de pequenas ranhuras, mágoas e traumas com todas as experiências. Alguém que sempre sofre por se entregar, amar e morrer muito mais - o dobro, o triplo... infinitamente! - a mais do que recebo de volta. E você, a única pessoa nesse mundo inteiro que realmente me amou mais, se doou mais, se entregou tão plenamente. E eu sempre presa em minhas inseguranças, meus problemas. Apegada a tantas coisas, que outrora diferentes, mudariam tanto. Você não entendeu mesmo nenhuma de minhas decisões, e eu jamais seria capaz de julgar-lhe por isso. Até eu mesma demoro a me entender. Em algumas noites que paro a refletir, a vontade que queima é de correr até você novamente, pedir colo, pedir aconchego. Desculpar-me um milhão de vezes. Voltar atrás. Mas isso seria a maior das provas de meu egoísmo negro. De minha preocupação somente comigo mesma, com minhas coisas tão fúteis. De meu ego tão maior que tudo, de sempre por a mim antes de qualquer outro. De não me preocupar com o que você sente, como você fica. Acredite nisso, embora eu tenha lhe ferido, poupei-lhe de tanto sofrimento pior. Poupei de comprovar ainda mais o que lhe digo, de mostrar realmente esse lado. De fazer com que você sofra ainda mais, por algo que não é de seu merecimento. Sim, no fundo, eu não merecia tanto de você. Não veja como um discurso lamentoso ou culposo, e sim como realista. Não aguentaria ver você passando por coisas piores de novo, somente por coisas que lhe causei. Você é que não merece passar por isso, não por tão pouco. E eu seria muito bem capaz de estragar tudo, em algum momento. De um modo pior do que eu havia feito. Ainda dói aqui dentro, ainda me é incômodo, ainda custa lembrar de tudo. Porque é óbvio, tudo está aqui dentro, gravado. Em cada trecho de livros, de poemas, de músicas então, como é possível? Porque a sua importância pra mim não tem descrição. Eu só tenho a lhe agradecer por tudo o que fez por mim, como todo o seu amor me fez um bem inestimável. Como eu não me arrependo de nada, como só acrescentou novas experiências e crescimento em minha vida. Eu gostaria de ser capaz de transmitir isso a você, fazer com que entendesse alguma dessas coisas sem me julgar, sem se maltratar como o fez. Sem me afastar de você. Mas seria prudente continuar sempre próxima a você? Não seria também, adicionando à enorme lista, mais uma de minhas atitudes tão mesquinhas e egoístas, de te manter em cativeiro,em proximidade, só para meu bem-querer? E dar-lhe seu espaço, seu tempo, não seria isso o melhor? Cabe a mim agora, passar por cima do que sofreu, fingindo uma normalidade, ou dividindo o que se passa comigo para não gerar atritos? Eu francamente não tenho ideia. Mas não suporto ver que, seja qual for a escolha que tome, você acaba por se ferir. Entende agora, como no fim, acaba sendo realmente sobre você?
Não foi eterno, posto que era chama.
Mas foi infinito enquanto durou.
Eu amo você.
